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Essa tal felicidade

Mal iniciei minha caminhada lá na Pista Claudio Coutinho fui tomada por aquela incrível sensação de felicidade completa, uma mistura perfeita de paz, alegria e encantamento. Isso acontece sempre que estou naquele lugar. Respirei fundo sentindo o cheiro forte de maresia e me senti plenamente feliz. Porém, aquela sensação maravilhosa foi se dissolvendo ao longo do dia, e se transformou em mais uma bela lembrança. Se prestarmos atenção, veremos que situações desse tipo ocorrem com freqüência em nossas vidas, mas normalmente não damos a elas muita importância porque o objetivo de todos nós, humanos, é o encontro definitivo com a felicidade. Aquela felicidade completa e duradoura tão proclamada pelos poetas. Mas será que ela existe?

Quando pensamos em felicidade, pensamos em algo grandioso. Imaginamos uma vida sem problemas, sem obstáculos, cheia de paz, com dinheiro, amor, saúde, mais dinheiro, sucesso, amizades verdadeiras e, ainda, como pano de fundo, uma família totalmente feliz, parecida com aquelas que aparecem nas propagandas de margarina. Mas infelizmente ou felizmente? não é bem assim que acontece.

O filósofo alemão Friedrich Nietzsche nos diz o seguinte: “o destino dos seres humanos é feito de momentos felizes e não de épocas felizes”. Trocando em miúdos, isso quer dizer que aquela tão procurada felicidade que permanecerá conosco durante muito tempo, na realidade, não existe. É apenas fruto da nossa imaginação estimulada pelos nossos desejos. E que se teimarmos nessa busca, ela pode nos levar à insatisfação, à decepção e, possivelmente, ao desânimo. Assim, só nos restam momentos felizes. Só nos restam aqueles momentos especiais, verdadeiramente únicos, que ao recordarmos ficamos sorrindo sozinhos, com total cara de bobos, lembrando do instante em que ficamos cara a cara com a felicidade.

Pessoalmente, penso que esses momentos felizes se escondem nas coisas simples. Tudo que realmente vale a pena tem como base a simplicidade: abraço apertado, mergulho no mar azul, céu estrelado, canto do sabiá, encontro com amigos queridos, todas as formas de carinho, receber uma boa notícia ou um presentinho inesperado, saber que sou amada... são situações muito simples e que me fazem feliz, apesar dos inevitáveis problemas. Acredito que sejam esses instantes felizes, muitas vezes absolutamente desvalorizados pelas pessoas, que nos reabastecem de energia para que continuemos nosso caminho, buscando sentir novamente aquela sensação de plenitude, de felicidade total que já sentimos antes, mesmo que ela tenha durado apenas alguns minutos. O vislumbre da felicidade nos leva a desejar que aquela sensação se torne duradoura, e é, nesse sentido, que continuamos incansavelmente nessa busca.

Já o poeta Carlos Drummond de Andrade, mais objetivo, proclama que “ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”.

E pra você, caro leitor, o que é essa tal felicidade?

Cristina Amarante

 

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